Desporto – Operação: África do Sul

22 de Julho 2011, 13:17

Tudo depende da selecção, até a venda dos jornais em pleno Mundial. “Não seria mau que Portugal fosse campeão do mundo”, comenta algo risonho Vítor Serpa, director de A Bola, um desejo que ajudaria a alavancar as vendas dos desportivos durante o Campeonato Mundial de Futebol, isto a cumprirem-se os resultados ocorridos noutros campeonatos onde as vendas dos jornais aumentaram quando “a selecção passou à segunda fase”. Daí que o responsável do diário da Sociadade Vicra Desportiva não hesite em dizer que tudo “estará dependente do desempenho da selecção nacional”, calculando um aumento de vendas na ordem dos 20 a 30 por cento face às recentes médias do diário e de mais de 50 a 60 por cento face a igual período do ano passado. “O impacto será grande. A média de vendas, que em Maio está já 6 por cento acima da de 2009, continuará a subir”, considera igualmente Alexandre Pais, director do Record. Um ponto de vista partilhado por António Tadeia. Também o director-adjunto de O Jogo acredita que a venda dos jornais não só dependerá do bom desempenho da selecção nacional, como também dos horários das emissões dos jogos. “A grande quebra da imprensa desportiva europeia sucedeu em 2002, ano do Campeonato Mundial da Coreia-Japão. Os jogos eram [dado a diferença de fuso horário] emitidos pela manhã”, recorda o profissional. Assim, temas publicados no dia seguinte nos jornais já não despertavam tanto interesse e a performance da selecção (afastada logo na fase de grupos) também não ajudou a manter a chama desportiva acesa. “Houve crescimento na imprensa desportiva em 2004”, diz o responsável. O factor recuperação económica vivido na época poderá ter dado o seu contributo, mas o entusiasmo em torno do Campeonato Europeu, que se realizou em Portugal e onde a selecção chegou à final, devem ter tido igualmente uma palavra a dizer, considera António Tadeia.

“Este é apenas o quinto Mundial em que Portugal vai participar, temos uma das principais estrelas do futebol Mundial da actualidade, Cristiano Ronaldo, existe muita esperança sobre a possibilidade de irmos além do quarto lugar alcançado em 2006 e, além disso, temos registado também muita curiosidade sobre como será este primeiro Mundial em África”, afirma por seu turno Nuno Francisco, director da Futebolista.

Mundial: Mais receitas?

Com os portugueses a viver e a respirar futebol durante um mês – ou pelo menos com maior fulgor enquanto a equipa de Carlos Queiroz se mantiver na competição –, as expectativas de crescimento das receitas publicitárias também estão em alta. “Nos anos em que se disputam grandes competições de selecções, sejam elas mundiais ou campeonatos da Europa, regra geral, nota-se um aumento de dinamismo por parte, sobretudo, das grandes marcas desportivas. Depois, existem outras marcas e outros produtos que se tentam associar ao futebol, pois sabem que, principalmente quando a selecção nacional está presente, existe um grande mediatismo à volta dela e todos querem aproveitar essa associação”, comenta Nuno Francisco.

“O investimento publicitário está com excelentes perspectivas”, afiança Alexandre Pais, embora sem revelar valores. Um optimismo também vivido por Vítor Serpa. “O aumento de publicidade para esta altura é muito significativo”, afirma o director de A Bola. O desportivo está a disponibilizar a possibilidade de patrocínios a alguns dos conteúdos do jornal, tendo a última página sido reformulada para acomodar o patrocínio do BES, marca que acompanha toda a campanha da selecção, exemplifica o responsável.

Um interesse da parte de anunciantes e leitores que mais do que justifica a aposta do diário desportivo na operação África do Sul. Vítor Serpa não revela valores totais dos custos de levar ao país que acolhe o campeonato Mundial de Futebol uma equipa de sete profissionais – três deles colocados “a 500 metros da casa onde está instalada a selecção”, outros tantos em Sandton, onde está a equipa do Brasil, e perto de Capetown -, com todos os custos inerentes de alojamento e segurança, mas dá uma ideia da dimensão da aposta quando revela que “só uma das casas tem um custo de 50 mil euros por mês”. “É um investimento muito grande, mas também as contrapartidas são bastante animadoras e atractivas”, assegura o director de A Bola.

“Teremos seis jornalistas na África do Sul e poucas sinergias de grupo”, comenta por seu lado Alexandre Pais quando questionado sobre se na campanha do Mundial o desportivo da Cofina iria tirar partido de sinergias com outros títulos da holding. “O Record e o Correio da Manhã têm, na diferença das abordagens e dos comentadores, a sua riqueza. Para enfrentarem a concorrência e para se estimularem um ao outro”, justifica, não revelando os valores de investimento com esta operação.

Um total de quatro profissionais é quanto O Jogo vai deslocar para cobrir o Campeonato Mundial, sendo que António Tadeia vai fazer igualmente comentário para a RTP, procurando fazer cobertura não só da actividade da equipa portuguesa, mas também “pela proximidade, das selecções sul-americanas”, através do recurso a colaboradores externos. Para o Mundial o título da Controlinveste também reforçou o lote de colunistas. O brasileiro Luís Fernando Veríssimo e Miguel Esteves Cardoso assinam diariamente uma coluna sobre o evento desportivo, “havemos de ter todos os dias um Portugal – Brasil”, tendo ainda o lote de opinion makers sido reforçado com Domingos Paciência, João Vieira Pinto e Jorge Coroado. Um naipe que ainda está “em aberto. Estamos à espera de três respostas”, diz António Tadeia, não revelando a quem foi endereçado o convite. Se O Jogo vai avançar com suplementos adicionais dedicados ao Mundial, tudo dependerá do desempenho da selecção, diz o responsável do desportivo.

“O Record vai repetir a fórmula vencedora de mundiais e europeus anteriores: os melhores colunistas, análises meticulosas, muita reportagem, o rigor de sempre na informação e, claro, algumas surpresas”, diz Alexandre Pais, sem revelar a estratégia de jogo. N’A Bola a participação portuguesa no Mundial vai ter direito a livro, resultante de uma parceria com a Imprensa Nacional -Casa da Moeda. O trabalho coordenado pelo jornalista do desportivo Rogério Azevedo, obra com “capa e papel especial”, vai dar conta da presença portuguesa nos mundiais de 66, 86, 2002 e 2006 e “dá uma perspectiva” para 2010, descreve Vítor Serpa, sobre a publicação que se junta ao guia do Mundial do título que, diz Serpa, para o online irá tirar partido do vídeo.

Na Futebolista o Mundial foi assinalado com uma edição especial autónoma dedicada a este evento desportivo. “É um guia para todos aqueles que pretendem acompanhar ou saber mais sobre o Mundial que vai decorrer na África do Sul, mas mantendo a linha editorial que caracteriza a revista”, diz Nuno Francisco. “São analisadas as selecções (com particular enfoque em Portugal), os jogadores, mas são também revelados outros dados igualmente importantes e que vão desde o histórico dos mundiais, quem foram os seus vencedores, onde se irão disputar os jogos, quais os atletas que fizeram história nesta competição, entre muitas outras curiosidades e números que ajudam a perceber melhor o porquê de esta ser a competição de selecções mais importante do mundo”, descreve o director da Futebolista, relembrando que apesar de o título mensal já assinalar o quinto ano é a primeira vez que avança com uma edição especial.

O responsável mostra-se optimista com o desenvolvimento da imprensa desportiva, considerando que apesar da “grave crise”, o “ interesse pelo fenómeno desportivo não tem sofrido grandes erosões”. “Por aquilo que nos é possível verificar, tendo até em conta a evolução da revista Futebolista ao nível das vendas, nota-se que as pessoas continuam a encarar, sobretudo o futebol, como uma ‘válvula de escape’ para as agruras que têm de enfrentar no dia-a-dia. E isso é perceptível até pelo interesse que tem suscitado aos mais variados níveis”, adianta, exemplificando: “Seja pela disputa dos direitos de transmissões televisivas, que se soube recentemente terem envolvido quantias milionárias, seja pelos vários canais temáticos dedicados ao desporto, pelos programas de debate, pelo crescimento que se tem registado ao nível do destaque do desporto nos vários canais de informação, seja na imprensa generalista, nas televisões, ou na internet, ou pela criação de algo tão simples como um blogue. O futebol, no nosso país, vende. Isso é um facto indesmentível”, refere o director da Futebolista. Algo que, do seu ponto de vista, não corre o risco de mudar.

Alexandre Pais é optimista q.b.: “Estamos num ano atípico, com o Mundial e com o Benfica campeão. Poderemos ter em 2010 o primeiro ano de crescimento desde 2004, mas é impossível navegar sem terra à vista”, considera o director do Record. “O pior da crise financeira está para chegar ao bolso dos portugueses e a crise psicológica é já muito dura e evidente. Ser optimista com este cenário não é fácil…”, lamenta.

- Esta bola vale milhões

2,7 mil milhões de dólares é quanto o Mundial de futebol deverá gerar, segundo as projecções da Sportcal. De acordo com os dados divulgados em meados deste mês, as receitas obtidas com os direitos de media a nível global rondam os 1,7 mil milhões de dólares, enquanto as projecções para os direitos comerciais estão na ordem dos mil milhões de dólares. Com esta ordem de grandeza de valores não espanta portanto a atenção e a disputa das televisões nacionais para os direitos de transmissão dos jogos, cujos valores exactos não são conhecidos. Em Portugal a SportTV tem aquilo que um ‘aficionado’ do futebol, mais deseja: 24 horas non stop de futebol. “O SportTV1 vai estar dedicado em exclusivo ao Mundial de manhã à noite”, diz Nuno Ferreira, director de programas da SportTV. A empresa tem os direitos para todos os jogos do Mundial “o que para o espectador que consome futebol é o máximo que se pode dar”, acredita o responsável do canal que, cem dias antes do início da competição, arrancou com a acção diária o Sonho Africano. Doze elementos da SportTV e a subcontratação de serviços técnicos no terreno, resultando numa operação a rondar os “600 a 700 mil euros” de investimento.

O futebol também irá ocupar uma fatia significativa da emissão da RTP1 em Junho. A estação pública irá transmitir um total de 48 jogos, incluindo os jogos de abertura e os de Portugal e do Brasil. Agora é que É (programa diário apresentado por Carlos Manuel Albuquerque), o concerto dos Black Eyed Peas, Força Selecção (a 5 de Junho, com Tânia Ribas de Oliveira e João Baião), Força Portugal (diário ao vivo) e Ligados a Portugal (acompanhando os bastidores da selecção) são alguns dos formatos através dos quais a estação pública vai seguir o Mundial, evento que irá marcar presença em diversas plataformas, inclusive o online (com mini-sites e blogues dos enviados especiais), teletexto e mobile.

“24 horas por dia, em todas as plataformas”. É esta a aposta da SIC para o Mundial, assegura Carlos Rodrigues, subdirector de informação e responsável pela área de desporto. O bloco de 18 jogos que a estação ganhou no concurso de sub-licenciamento aberto pela RTP, que detém os direitos do Campeonato do Mundo de Futebol FIFA 2010, funcionam como conteúdo “fundador e substantivo da operação Mundial”. Mas como nem só de jogos vive a operação África do Sul, a estação de Carnaxide está igualmente a preparar um lote de programas e de produtos para as plataformas da marca. Um grupo de oito profissionais de informação irá acompanhar a selecção e tudo o que rodeia o evento desportivo, a que se juntam mais três da programação que irão produzir rubricas para os programas de Fátima Lopes (Vida Nova), Rita Ferro Rodrigues (Companhia das Manhãs) e Alta Definição, “que vai ter três emissões especiais na África do Sul”. Resumos alargados para todos os jogos, a emitir na SIC Notícias, Diários do Mundial (SIC e SIC Notícias) e, “prato forte”, o regresso de Os Íncriveis, para além da estreia de Football for Kids, são outras das apostas. Haverá ainda um formato internacional de quatro episódios que coloca o treinador José Mourinho a ensinar futebol a crianças, explica Carlos Rodrigues, um site dedicado ao Mundial e blogues. “O Mundial está na SIC e vamos acompanhar a selecção até ao fim”, sintetiza o subdirector de informação.

Apesar de não transmitir os jogos do Campeonato, a TVI transmite três jogos de preparação da selecção portuguesa. O primeiro foi frente à selecção de Cabo Verde, o segundo, no dia 1 de Junho, frente aos Camarões, e o terceiro no dia 8 de Junho, em Joanesburgo frente a Moçambique. “Os jogos de preparação são transmitidos em True 3D, a mesma tecnologia utilizada em cinema, graças a uma parceria TVI/Zon. A TVI está, deste modo, na vanguarda da evolução tecnológica do sector proporcionando aos espectadores uma experiência inédita em Portugal”, comenta fonte oficial da estação. Diariamente será ainda transmitido o MaisMundial, no TVI24, com a apresentação a cargo de José Carlos Castro e Pedro Pinto. “O painel de comentadores residentes é composto por João Querido Manha, Toni, Nuno Madureira, José Eduardo e Carlos Mozer. Em todos os programas haverá também um convidado ligado a outras áreas, nomeadamente à cultura, arte e politica”, descreve a mesma fonte.

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