O Desporto contra o Bairrismo – O nosso “Invictus”

22 de Julho 2011, 13:19

“Êss é Cabo Verde di nôs, país querido di nôs caboverdiano. Ca nô tchá maldade dividi nôs, li é nôs paraiso, nôs torrão natal” Manuel de Novas

Hoje comemora-se mais um aniversário da Independência de Cabo Verde, dia de Cabo Verde, dia do orgulho crioulo, dia de união de todos os cabo-verdianos.
Se Cabo Verde é hoje apresentado, a nível internacional, como um modelo em África, é porque os cabo-verdianos tem sabido reagir, juntos, as adversidades que têm aparecido nesta caminhada rumo ao desenvolvimento.
Muitos países têm recorrido ao desporto para unir os seus povos, para combater a “guerra das armas”, para eliminar questões raciais e étnicas. E exemplos não nos faltam, sendo o expoente máximo o que Nelson Mandela conseguiu fazer com o Rugby na África do Sul.
De facto o desporto na sua vertente social, tem esse poder. Poder que mais nenhum outro sector tem, pois consegue mexer com os mais profundos sentimentos, unir todos à volta de um símbolo, de uma imagem, de um ideal.
Mas como tudo, se o Desporto não for bem tratado, pode tornar-se num espaço problemático, onde os males sociais podem provocar danos irreparáveis, provocar feridas que custam curar.
Infelizmente nos últimos anos o “bairrismo” tem encontrado no Desporto de Cabo Verde o espaço ideal para a sua ploriferação, manifestando como o palco ideal para a explosão de sentimentos e agonias que são causados pelos problemas do dia-a-dia.
No caso de Cabo Verde, o desporto tem tido precisamente o papel inverso que tem tido noutras sociedades, e quem disser o contrario é porque não quer ver as coisas.
A final do Campeonato Nacional entre a Académica do Mindelo e o Sporting da Praia (2007), o jogo do Mindelense na Cidade da Praia para o Campeonato Nacional (2009), as meias-finais do Campeonato Nacional de Futebol (2010), tanto no Sal como em São Vicente, só para falar dos casos mais mediáticos, sem falar das modalidades como o basquetebol ou andebol que constantemente, quer nos terrenos de jogo quer nos bastidores tem sido exemplo desse poder devastador que o bairrismo tem tido no desporto em Cabo Verde.
Isso só tem sido possível, porque para além de algum tempo de antena que o desporto cabo-verdiano começa a ter, ainda continuamos a ter dirigentes desportivos mal formados e mal preparados, que não têm sabido liderar com esse factor e que em vez de contribuir para a eliminação do bairrismo, apenas têm contribuído para o seu desenvolvimento. Os dirigentes têm que medir as suas palavras pois são os líderes e as suas atitudes são copiadas e seguidas, influenciando o comportamento de muitos outros agentes desportivos.
Cabe também ao poder político, juntar todos os intervenientes e criar um plano de acção, utilizando o desporto e não só, e não esperar que este fenómeno ganhe mais espaço, para depois se reagir. Devemos agir e não reagir.
Não devemos ter medo de apontar as falhas e apresentar soluções sem receio e sem porreirismo.
O Governo acaba de dar um sinal claro para o desporto de Cabo Verde, com a Nova Lei de Bases do Sistema Desportivo, que ainda falta completar com o Regime jurídico das federações desportivas, o Regime jurídico do combate à violência, ao racismo, à xenofobia e a intolerância nos espectáculos desportivos e o Regime jurídico do contrato de trabalho desportivo.
O futuro será para os que estiverem organizados, unidos, com projectos claros e com objectivos bem definidos. Só assim se conseguem triunfos sustentáveis no desporto e essa selecção será feita naturalmente, onde os males serão colocados a margem dos êxitos, mesmo que isto custe a auto-exclusão de alguns agentes desportivos.
As Selecções Nacionais devem ser o expoente máximo da união de todos os cabo-verdianos, quer o jogador seja oriundo da Brava ou do Sal, quer o Treinador seja de Maio ou de São Vicente e o Presidente de Santo Antão ou de Santiago, eles representam o orgulho de ser cabo-verdiano e devem representar a sonho de todos.

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